
Sempre que a Toei anuncia um filme crossover entre Kamen Rider e Super Sentai eu fico com um pé atrás, com a expectativa abaixo de zero e a decepção é praticamente certa. E não é a toa. A produtora já vinha fazendo verdadeiros “caça-níqueis” como a famigerada série de filmes Super Hero Taisen. O primeiro filme, lá de 2012, reuniu todos os heróis das duas franquias, com o produtor Shinichiro Shirakura dando aquela desculpa básica do tipo “Rider é ciência, Sentai é magia“.
Contrariando a lógica do Tiririca, pior do que estava ficou com o filme Kamen Rider Saber + Kikai Sentai Zenkaiger: Superhero Senki, que estreou nos cinemas japoneses em 22 de julho de 2021. O ano foi marcado pelas comemorações de 50 anos de Kamen Rider e 45 anos de Super Sentai. Rolou até uma homenagem ao mangaká Shotaro Ishinomori, criador de Kamen Rider e Gorenger, os pioneiros das respectivas franquias. Transformar o rei do mangá num personagem do filme pode ser a melhor das intenções da Toei, mas não dá pra esperar algo grandioso, considerando o histórico de crossovers com roteiros mambembes.
O pivô de tanta confusão é o monstro Asmodeus, que toma posse de livros não selados que contém todas as histórias de Kamen Rider e Super Sentai. Touma Kamiyama, Mei Sudo e Yuri são teletransportados para o mundo de Zenkaiger, e acabam procurando por seus amigos com a ajuda de Juran. Ao serem atacados pelo exército de Tojitendo, os heróis conhece um garoto chamado Shotaro, que possui uma caneta com poderes extraordinários. Enquanto isso, Kaito Goshikida, Gaon, Magine e Vroom são teletransportados para o mundo de Kamen Rider Saber.
Asmodeus lança os personagens dos dois mundos (ou melhor, dos dois livros) para outras histórias como Jornada ao Oeste e Nansō Satomi Hakkenden. E, sabe-se lá como, são inseridos personagens como os Imagins de Kamen Rider Den-O, Doggie Krugger de Dekaranger, e até um gigantesco Oma Zi-O de Kamen Rider Zi-O.

Superhero Senki consegue fazer boas referências, algo positivo na trama. Mas isso não é garantia de diversão 100%. O filme é mais do mesmo e, pra variar, os eventos acontecem sem explicação e sem sentido, a não ser por vender mais ingressos em cima dos aniversários das duas franquias.
Nem as participações especiais como a dos cantores Isao Sasaki e Atsushi Yanaka como os vilões Sentai Megid e Rider World, respectivamente, ou de Hiroshi Fujioka como Takeshi Hongo/Kamen Rider salvam o filme da perdição. Aliás, Superhero Senki fez uma piada com a própria Toei quando Asmodeus diz o seguinte: “Reusam os mesmos temas cansativos e repetitivos à mercê de sua falta de criatividade.“
Sim, hei de concordar com o vilão, pois a ideia de juntar todas as histórias para destruir de uma só vez está dando certo a cada encontro entre ambas as franquia. É sempre o mesmo padrão. Inventam uma desculpa para jogar os heróis numa trama qualquer, colocam eles pra brigar, todos se juntam contra os inimigos, vem um novo herói (como foi o caso de Revi e Vice de Kamen Rider Revice), acabam com o inimigo e fim de papo.

E dessa vez sobrou para o saudoso Shotaro Ishinomori, que infelizmente foi representado por um pré-adolescente tímido, apagado, inseguro e sem a menor graça. Como Ishinomori surgiu nas próprias histórias que criou, e ainda mais agora que, depois da sua morte, a coesão foi praticamente abandonada ao longo da última década?
Pra variar, teve muito dramalhão, soluções fáceis e mágicas demais. Ou seja, a solução pra tudo é o surrado deus ex machina. Duvido que o (verdadeiro) Ishinomori fizesse um roteiro tão bizarro como este, e ele merecia uma homenagem mais justa. Até um Matrix Ressurections da vida consegue sem “melhor” do que isso.
Superhero Senki entra para o rol dos filmes nonsense do tokusatsu (como esperado) e conseguiu a proeza de superar Super Hero Taisen em ruindade e falta de coesão. Toei, dá um tempo e traz de volta o Space Squad, que é bem melhor e mais consistente, vai.