Ultraman Leo | 50 anos do clássico que sobreviveu a crise setentista

Ultraman Leo e seu irmão Astra | Divulgação: Tsuburaya

Em 1970, após a morte de Eiji Tsuburaya, o estúdio Tsuburaya Productions passou por uma reorganização, graças ao empenho de seus filhos Hajime e Noburo Tsuburaya. Essa então nova fase começou em abril de 1971 com o lançamento da série O Regresso de Ultraman, um importante embrião para a formação da Irmandade Ultra. Nesta fase, surgiram outras séries como Ultraman Ace (1972) e Ultraman Taro (1973; leia: “Tarô”). Durante a exibição deste último, o mundo sofria com a segunda crise do petróleo que atingiu a pré-produção de uma série Ultra que estava programada para ir ao ar em março de 1974. Ultraman Taro ganhou mais quatro episódios. Finalmente, na noite de 12 de abril de 1974, estreou o último clássico da era de ouro da Família Ultra.

Ultraman Leo foi a sétima da franquia e, até hoje, é uma das mais importantes da mitologia dos heróis gigantes da Tsuburaya. Era uma sequência indireta de Ultraseven, clássico de 1967. Dan Moroboshi (o alter ego do lendário herói reinterpretado por Kohji Moritsugu) estava de volta à Terra após 6 anos de sua batalha contra Alien Ghos e Pandon. Agora como capitão da equipe anti-monstros MAC (Monster Attacking Crew), o veterano trava uma batalha feroz contra Alien Magma e os monstros gigantes Giras Brothers (Red Giras e Black Giras), perdendo seus poderes e ficando manco de uma das pernas, resultando em uma das cenas mais chocantes do programa.

Para salvá-lo, Ultraman Leo surge impetuosamente, vindo diretamente da extinta Nebulosa L-77, situada na constelação de Leão. Assim como Seven, Leo assume a forma humana na Terra, sem usar um hospedeiro. Sua identidade na Terra é Gen Ootori (interpretado por Ryu Manatsu), que passa a servir como oficial da MAC, além de carregar a responsabilidade de proteger a paz em nosso planeta como Ultraman.

Fora da MAC, Gen treina crianças em um clube de esportes com Takeshi Nomura e Momoko Yamaguchi. Nos primeiros episódios, Gen e seus amigos passam a cuidar de Tooru (uma versão chatinha de Jiro Sakata, de O Regresso de Ultraman) e sua irmã mais nova Kaoru após ver seu pai ser assassinado por um monstro. Gen se identifica com Tooru ao vê-lo solitário e lembra de sua terra natal destruída.

O amargurado oficial Gen Ootori | Divulgação: Tsuburaya

Gen usa o Leo Ring para se transformar em Ultraman Leo. Apesar do herói ter alguns golpes e ataques especiais como o Leo Kick, ele lutava corpo a corpo contra seus oponentes, utilizando até mesmo habilidades do karatê e não dispensava socos e pontapés.

Leo foi um herói bastante sofrido nas séries Ultra. Logo nos primeiros episódios, Gen se mostra um guerreiro despreparado e seu descuido era deixar facilmente inocentes em perigo. O Capitão Dan Moroboshi era um elemento importante nestes momentos de crise (e que não deixa o espectador largar a série por conta dos vacilos de seu subordinado/discípulo).

Para aprender a ser um herói com grandes responsabilidades, Moroboshi sempre colocava Gen em treinamentos extremamente pesados. Em uma dessas situações, Gen foi desafiado a cortar a correnteza de uma cachoeira para derrotar um poderoso inimigo (a situação se repetiu anos mais tarde num episódio de Shaider, a terceira série Metal Hero, da Toei Company). Com seu Ultra Olho destruído e nem ao menos poder se transformar em Ultraseven, Moroboshi usa a Ultra Psicocinese apenas em casos de extrema necessidade. Tal poder consome as forças do capitão da MAC. O ponto alto da interação deles sempre era a bronca que o veterano dava ao novato, com a intenção de mostrar que a vida não é nada fácil. No núcleo da MAC, a narrativa da série tinha como foco os membros alienígenas. Diferente das séries anteriores, que mostravam o carisma das equipes anti-monstro, a MAC tinha membros coadjuvantes.

A série vai melhorando e abandonando clichês,, tomando uma pegada mais sombria e altamente violenta. A qualidade levou a Tsuburaya produzir vários episódios dignos de verdadeiros contos de terror. Para quebrar essa intensidade, alguns episódios apresentados durante o verão focaram em homenagens ao folclore japonês, saindo um pouco do clima sangrento e partindo para um apelo mais infantil. O que não deixa a série ruim.

Na série, Dan Moroboshi é o capitão da MAC; mas sem poderes do Ultraseven e manco de uma das pernas | Divulgação: Tsuburaya

Ultraman Leo possui sagas marcantes. Algumas delas com o auxílio de Astra, o irmão mais novo do herói-título que chega para ajudá-lo, sendo este o primeiro Ultra secundário da franquia. Nesta mesma série acontece a estreia do lendário Ultraman King, que concede a Leo o Ultra Mantle que pode se converter (pasme!) num guarda-chuva, o LeoBrella, e também no Ultra Mantle Mirror. Até então, Ultraman King era apenas um divindade jamais vista por alguém da Estrela Ultra. Os irmãos Zoffy, Ultraman, Ultraman Jack (ainda chamado na época como “Kaetekitta Ultraman” e “Shinman”) e Ultraman Ace também dão o ar de suas graças, além de uma brevíssima participação do casal Pai e Mãe de Ultra.

O episódio 40 é, senão, o mais decisivo. Devido à crise do petróleo, a Tsuburaya não teve outra escolha a não ser mudar o rumo de Ultraman Leo. Com isso, vários personagens principais tiveram seus destinos alterados com a chegada dos demoníacos Discos Vivos. Este arco é tão intenso que chega a ser pecado mortal dar qualquer spoiler; o que posso dizer é que os últimos 12 episódios são os melhores devido à intensidade de catástrofes e dramatização. São momentos carregados de puro terror e violência que podem ser traumáticos, caso você se apegue com um determinado elemento. É de deixar o espectador na ponta do sofá e roendo as unhas. Além disso, os laços entre Gen e Tooru são colocados à prova.

Devido à instabilidade econômica da época, Ultraman Leo teve efeitos capengas e monstros de baixa qualidade. Em contrapartida, os roteiros são muito bem compensados. Aliás, a série teve vilões bastante impopulares. Os únicos que se destacaram foram Alien Magma e o monstro Nouva (um dos Discos Vivos), que apareceram em outras produções da franquia. Nem mesmo a escassez de verba deixou o brilho da série se apagar. Numa época onde animês de esporte estavam em alta, Ultraman Leo passava uma mensagem de determinação de maneira própria e imparcial para os padrões das séries japonesas da época. E o herói aprendeu e ensinou a superar toda e qualquer crise.

Elenco e produção

O ator Ryu Manatsu, que viveu Gen Ootori, era quem cantava o primeiro tema de abertura. Um dos destaques era o tema de inserção “Hoshizora no Ballad” (Balada de um Céu Estrelado) que contava a tristeza de Leo após ter perdido seu planeta-natal. Uma lindíssima melodia! Esta mesma canção foi tocada no game Ys IV – The Dawn of Ys, lançado em 1993 pela Falcom. A partir do episódio 14, Ultraman Leo ganha um novo tema de abertura, “Tatakae! Ultraman Leo”, cantadas por Yuki Hide (creditado como Hideyuki), mais conhecido entre os fãs de tokusatsu por interpretar temas de clássicos como Kikaider e Spiderman (a série japonesa do Homem-Aranha).

O magnífico Ultraman King | Divulgação: Tsuburaya

Ultraman Leo contou com participações notáveis no elenco:

  • O ator Tsunehiro Arai (Tooru) apareceu em Lion Man (o laranja, de 1973) como o garoto Sankichi. Curiosamente, ele interpretou dois personagens mirins que representavam leões em tokusatsu. Também participou em Ultraman Taro no ano anterior;
  • Falando em participações infantis, o ator Tomonori Yoshida, o Júpiter de Cybercop, também aparece aos 8 anos. Anos mais tarde, ainda criança, aparece num episódio de Spiderman, de 1978;
  • O ator Yukio Ito, o Takeshi Nomura na série, interpretou Midorenger em Gorenger (1975) e Battle Cossack I em Battle Fever J (1979) – ambas séries Super Sentai;
  • Ultraman Leo também contou com outras participações como Susumu Kurobe, Hiroko Sakurai (ambos foram Hayata e Akiko, respectivamente, em Ultraman), o saudoso Tetsuo Narikawa (Spectreman), Tetsuya Ushio (Lion Man) e Masayuki Susuki (Kojiro Ooyama em Gavan, Sharivan e Shaider e Hakushin em Jiraiya);
  • Para os fãs de Ultraseven, a atriz Yuriko Himishi volta a interpretar Anne Yuri em apenas um episódio, marcando seu retorno seis anos após o fim da série.

Após a série de TV

Algumas cenas de Ultraman Leo em ação podem ser vistas no filme Ultraman Story (1984), que conta a origem de Ultraman Taro. Um filme bem confuso e cheio de furos na cronologia de M-78. Em 2006, Ryu Manatsu volta à pele de Gen Ootori na série Ultraman Mebius, que comemorou os 40 anos do primeiro Ultraman. Aparece também nos filmes Mega Batalha na Galáxia Ultra (2009), Ultraman Zero: A Vingança de Belial (2010), e Ultraman Saga (2012). Além do especial Ultra Galaxy Legend Gaiden: Ultraman Zero vs. Darklops Zero (2010), algumas aparições no programa Ultraman Retsuden (2011) e na série Ultraman Ginga (2013). Curiosamente, Leo se tornou mestre de Ultraman Zero, o filho de seu mentor, em Mega Batalha na Galáxia Ultra.

Leo contra Silver Bloome, no clássico episódio que deu início à reta final da série | Divulgação: Tsuburaya

Entre 12 de novembro de 2014 e 14 de outubro de 2018, todos os 51 episódios de Ultraman Leo estiveram disponíveis oficialmente via Crunchyroll, com legendas em português. Era a série mais antiga a passar pela plataforma de streaming, até então.

Atualmente, em celebração aos 50 anos de Ultraman Leo, o canal oficial da Tsuburaya no YouTube está lançando semanalmente os episódios da série, todas as sextas, a partir das 7h da manhã (horário de Brasília), com legendas em inglês (tradução automática para português nas configurações da plataforma).

Ultraman Leo é, de longe, a série mais sombria e dramática da franquia. Vale a pena ver (ou rever) esse maravilhoso clássico. O Olho do Leão continua a brilhar após meio século!

*Texto original publicado em 30 de dezembro de 2016, quando publicações deste mesmo blog ainda eram via plataforma Blogspot. Esta versão foi devidamente revisada e atualizada.


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