
As primeiras séries Kamen Rider da era Heisei, da década de 2000, são bem lembradas pelos fãs de tokusatsu como a melhor época da franquia, com enredos que lembram novelas e doramas, mas com toques de ação, suspense e ficção científica. Em 2005, a Toei resolveu experimentar algumas mudanças com a série Kamen Rider Hibiki, que completa 20 anos nesta quinta (30) e ainda hoje divide a opinião do público.
Assim que Kamen Rider Blade foi ao ar no final de janeiro de 2004, a Toei começou a planejar a série que iria substituir a atração nas manhãs de domingo pela TV Asahi. Durante o brainstorming, o produtor-chefe Shigenori Takatera (o mesmo de Kamen Rider Kuuga) entendeu que a fórmula das disputas entre Riders e protagonistas muito jovens estava saturada. Por isso, não queria dar continuidade às séries Kamen Rider.
As vendas de brinquedos de Blade não superavam as da série Chouseishin Gransazer, produzida pela Toho entre 2003 e 2004. O plano de Takatera era reiniciar os antigos heróis da Toei, como Gavan, e principalmente do mangaká Shotaro Ishinomori (1938~1998), como Henshin Ninja Arashi e Kikaider. Ele queria, com essas mudanças, revitalizar os heróis clássicos da Toei e de Ishinomori, como uma espécie de “versão japonesa da Disney”. Um bom exemplo disso foi a Armadura do Ogro, uma versão repaginada de Arashi que aparece no episódio 36 de Hibiki.

Após o brainstorming, decidiu-se inicialmente que a temática da então nova série seria uma mistura de ninja, caça e yokai. Porém, em março de 2004, surgiram rumores de que Genseishin Justirisers, a série que substituiria Gransazer, teria um tema sobre ninjas. A fim de evitar competição com a Toho, a equipe de produção retirou a temática sobre ninja e yokai e substituiu por algo como “caçadores de demônios” e “criaturas mágicas”.
Ao ser informada pela Toei de que a série Super Sentai de 2005 usaria temática sobre magia (no caso, Magiranger), a equipe de produção precisou realizar um retrabalho para remover tudo o que mencionasse magia no projeto. Círculo mágico, feitiços e criaturas mágicas foram reimaginados em “Onmyoji” e “Shikigami”, dando origem aos Disk Animals da série.
Por questões de merchandising e um forte pedido da Bandai, o projeto adotou o nome “Kamen Rider”, e a equipe de Takatera precisou adaptar todos os elementos para a nova série, batizada como Kamen Rider Hibiki. Assim, o enredo teria algo como Oni Riders, armas taiko e uma relação entre mestre e aprendiz.
Tentando encontrar seu lugar no mundo
Com roteiro inicial de Tsuyoshi Kida e Shinji Ooishi, a série apresenta os Riders como Oni, que formam a organização secreta Takeshi (referência ao nome verdadeiro do primeiro Kamen Rider), que luta contra criaturas chamadas Makamou, capazes de se alimentarem de seres humanos. A trama gira em torno do jovem estudante Asamu Adachi, que conhece um homem misterioso chamado Hibiki, que inicialmente não pretende ter discípulos.

Com o passar do tempo, Asumu (que é, de certa maneira, o protagonista da série) cria uma amizade com Hibiki e, com o tempo, decide enfrentar sua própria insegurança e aprimorar suas técnicas para combater os Makamou. Além de Hibiki, outros Onis são apresentados, como Ibuki e Todoroki, cada um com suas próprias habilidades e personalidades.
Para quem tinha acompanhado as séries Kamen Rider anteriores a Hibiki, é impossível não comparar a dinâmica desta com as demais. Hibiki é uma série com um ritmo mais lento: os heróis não falam “Henshin” e nem usam cinto de transformação, nem desferem um “Rider Kick”. Em vez disso, utilizam instrumentos musicais como armas. A série, em sua primeira metade, foca em explorar as motivações de cada personagem, especialmente no que diz respeito a superar obstáculos.
Outro diferencial em Hibiki é que, inicialmente, o tema de abertura era instrumental. A série também havia resgatado o espaço para tema de encerramento (interpretado por Akira Fuse), já que Agito, Ryuki, 555 (Faiz) e Blade não o apresentavam, encerrando diretamente com o preview do próximo episódio. Mas isso não vingou por muito tempo.
Uma drástica mudança no caminho

Após os primeiros 29 episódios, sem uma declaração oficial, a Toei retirou Takatera da posição de produtor executivo de Kamen Rider Hibiki, sendo substituído por Shinichiro Shirakura. Já os roteiristas Kida e Ooishi foram substituídos por Toshiki Inoue e Shoji Yonemura, que haviam trabalhado com Shirakura na série Sh15uya (Shibuya Fifteen, também de 2005).
Tais problemas afetaram os rumos da trama até o seu final (o último episódio teve cerca de seis roteiros diferentes), algo que revoltou os críticos e também parte do elenco principal. Até hoje, não houve uma explicação por parte da Toei, mas as baixas vendas de brinquedos eram apontadas pelos críticos como um motivo principal.
Algumas mudanças podem ser notadas a partir do episódio 30 de Hibiki, como a introdução de um novo personagem, o jovem ambicioso Kyosuke Kiriya, que era rival de Asumu e quer ser discípulo de Hibiki a todo custo. A série ganhou uma nova abertura, interpretada por Akira Fuse, enquanto o tema de encerramento foi removido a partir do episódio 34. Apesar de toda mudança, Toshiki Inoue deixou sua principal marca na última metade da série: explorar o drama dos personagens. Embora nem tudo tenha sido perfeito.
Kamen Rider Hibiki pode ser polêmico, tanto pela mudança drástica de visual quanto pela brusca troca da equipe de produção. Ainda assim, é uma série que não deve ser subestimada e deve ser vista com outro olhar: antes de um herói enfrentar monstros, é preciso enfrentar seu próprio medo. Afinal, essa é também a sina de um Kamen Rider, não é mesmo?
Com distribuição da Sato Comapny, Kamen Rider Hibiki estreou no Brasil em 8 de março de 2024 pela plataforma de streaming Amazon Prime Video, com legendas em português.
Duas décadas

Em 30 de janeiro de 2025, a Toei divulgou o logo de aniversário de 20 anos de Kamen Rider Hibiki. Ainda neste ano, a série vai ganhar produtos pela linha Complete Selection Modification.

Veja cinco curiosidades sobre a série:

*Shigeki Hosokawa, ator principal que interpretou o estiloso Hibiki, tinha 33 anos quando a série foi ao ar. Idade acima da média para astros principais de Kamen Rider. Hosokawa interpretou Raye Iwamatsu no primeiro filme live action de Death Note (2006).
*Kamen Rider Hibiki foi a última série da franquia filmada em vídeo, no formato 1080i.
*Esta foi a única vez, desde Kamen Rider Agito, que o dublê Seiji Takaiwa não vestiu o traje do herói-título durante a era Heisei.
*Duas atrizes de Hibiki morreram precocemente. A primeira foi Miyuke Kanbe, que interpretou Hinaka Tachibana, aos 24 anos em 18 de junho de 2008, vítima de uma insuficiência cardíaca. E a segunda foi Sei Ashina, que interpretou Hime, foi encontrada morta em sua residência em 14 de setembro de 2020, aos 36 anos.
*Em 2019, os atores Shingo Kawaguchi e Yuichi Nakamura voltam a interpretar Todoroki e Kyosuke Kiriya, respectivamente, nos episódios 33 e 34 de Kamen Rider Zi-O.