Gozyuger: falta de planejamento de Akiko Inoue prejudicou a reta final da última série Super Sentai

Daigo Matsuura e Akiko Inoue | Divulgação: Animate Times

Qualquer roteiro que se preze deve — ou deveria — ter um mínimo de planejamento para a reta final. Às vezes, as coisas não saem como esperado e tudo pode mudar, dependendo da receptividade do público. Quando não existe planejamento, as coisas ficam sem rumo e saem do prumo. E foi exatamente isso que aconteceu no final de No.1 Sentai Gozyuger, a última série Super Sentai antes desse período de hiato.

Esse problema foi exposto em uma recente entrevista da roteirista Akiko Inoue e do produtor-chefe Daigo Matsuura, da Toei Company, para o portal Animate Times. Inoue disse que só começou a pensar no final após a conclusão do arco de Rei Gushima (interpretado por Ryouma Baba, que anteriormente interpretou o Blue Buster em Go-Busters, de 2012), situada no episódio 34 de Gozyuger.

Inoue chegou a escrever quatro rascunhos, incluindo um final alternativo em que Saori Ijima, a dona do Cafe Half Century, se revelaria como a líder da Calamidade. Mas ela não sabia muito bem como resolveria o final. Em outras palavras, o roteiro de Akiko Inoue foi feito “nas coxas”, como se diz aqui no Ceará. O resultado foi previsível demais. Mais raso que um pires.

O último episódio foi regular e conseguiu, apesar dos pesares, respeitar de alguma forma o legado das séries Super Sentai. Foi menos pior do que os episódios anteriores mais recentes. Porém, é quase inevitável falar de Gozyuger sem lembrar da polêmica demissão de Maya Imamori. Até isso prejudicou a edição do último episódio da série, com remendos nas cenas da Gozyu Unicorn. Parecia edição a la VR Troopers de tão malfeita.

Mas vamos nos deter em alguns trechos da entrevista. Matsuura falou sobre os rumos do final de Gozyuger. “Não decidimos isso desde o início, mas sempre conversávamos sobre: ‘Qual deveria ser o desejo do Hoeru?’. Então, para descobrir o desejo dele, todos os anéis se reúnem ao redor do Hoeru e nos perguntamos: ‘E se tivéssemos um desenvolvimento em que todos ao redor dele desaparecessem?’. Em termos de roteiro, foi por volta da época em que a Ribbon apareceu”, afirma ele.

Em outro momento da entrevista, Inoue fala sobre a ideia de quem deveria ser o chefe final. “Em um jantar, o Matsuura mencionou a ideia do Fire Candle. Também havia uma ideia em que não haveria um chefe final específico, mas a batalha final pelo anel se tornaria o chefe final. Eu achei a ideia do Fire Candle interessante, então, pessoalmente, acho que foi uma boa escolha”.

Tá certo que Fire Candle e também Bouquet eram vilões carismáticos, bem mais que o próprio herói principal (Hoeru). Mas era bastante óbvio, genérico demais, colocar Fire Candle como vilão da reta final. Por que não seria o Rex, que foi derrotado no penúltimo episódio e foi mal aproveitado?

Sobre o confronto entre Hoeru e Kuon, Inoue diz: “‘Qual é o verdadeiro desejo de Kuon?’ era uma pergunta que me intrigava há algum tempo. Desde a fase de desenvolvimento do personagem, dada a sua situação de estar preso à maldição da TegaJune, eu o imaginei como alguém que realmente queria que o Hoeru o salvasse. Eu sempre o imaginei como um personagem frágil. Eu não conseguia fazer isso funcionar. Quando eu estava escrevendo o episódio em que o confronto entre Hoeru e Kuon se desenrola, de repente fez sentido para mim que “o desejo do Kuon é perdoar o Hoeru”, e foi assim que cheguei a esse final”.

Ok até aí. Mas precisava mesmo transformar Kuon em uma mísera adaga, como símbolo de sua “redenção”? Não seria mais sensato colocar Kuon e Hoeru lutando lado a lado após essa resolução?

Dá pra notar que Akiko Inoue ainda está longe do nível de seu pai, o também roteirista Toshiki Inoue, uma lenda viva do tokusatsu que tem como marca explorar os conflitos de seus personagens. Como disse Adriano Naressi em seu review publicado nesta semana para o portal Tokusatsu.com.br, “Super Sentai, assim como as novelas brasileiras, são obras abertas. Muitas vezes mudam no meio do caminho, a depender da audiência e da opinião do público. Porém, nenhum barco, quando zarpa de um porto, chegará ao destino se não tiver, ao menos, uma rota traçada”.

Se Akiko Inoue tivesse, ao menos, ideias para o final com meses de antecedência, a reta final poderia ter um pouco mais de dignidade. Mas nem mesmo os pontos positivos do episódio final de Gozyuger foram suficientes para salvar a trama, que teve todo um potencial desperdiçado. É por essas e outras que Super Sentai tem mais é que descansar pelos próximos dez anos (ou mais).


Um comentário sobre “Gozyuger: falta de planejamento de Akiko Inoue prejudicou a reta final da última série Super Sentai

Deixe um comentário