Gavan Infinity contra a falsa memória afetiva do “Gavan adulto”

Gavan Infinity derrubando o primeiro monstro da semana | Divulgação: Toei/TV Asahi

Gavan Infinity estreou há duas semanas no Japão (uma semana no Brasil, com distribuição via Sato Company). A primeira série do Project R.E.D. (Records of Extraordinary Dimensions) ainda não chega a ser espetacular, mas é bem legal com referências às séries Metal Hero e preservação de alguns elementos das séries Super Sentai — que deram lugar à nova franquia de tokusatsu nas manhãs de domingo da TV Asahi.

Mas nem tudo agrada a todos e está tudo bem até aí. O problema é que nem todo adulto da geração Manchete amadureceu o suficiente para entender que tanto Gavan Infinity quanto o Gavan original de 1982 são destinados às crianças de suas respectivas épocas. A história é quase sempre a mesma. Surgiu uma novidade? Aparece algum “fã” dizendo algo como “ah, esse Gavan Infinity estragou minha infância”. Uau! Sério mesmo?

Na boa: nunca entendi como uma série da atualidade pode interferir na memória afetiva de um clássico que continua aí, preservado e disponível oficialmente no Brasil. Desde a estreia de Gavan Infinity, eu já vi comentários desse tipo e também um mais ou menos assim: “Gavan é prata, Sharivan é vermelho e Shaider é azul. Pra quê mudar a cor?”.

Como diria um antigo garoto-propaganda de uma marca de xarope: eu tô cansado de dizer pro povo dessa cidade. Gavan Infinity tem um traje vermelho porque essa é a intenção do Project R.E.D.: apresentar protagonistas de cada série com trajes vermelhos. Além do mais, Gavan pode ser prata, vermelho, dourado, azul, verde, preto, branco, rosa ou o que vier.

Que “Gavan adulto” é esse que surgiu nas redes sociais? | Divulgação: Toei

Querendo ou não, o nome Gavan virou título, assim como Ultraman e Kamen Rider. E isso não é de agora. Começou lá em 2012, com os dois filmes comemorativos de 30 anos da série clássica. Então, por mais estranho que ainda possa parecer para alguns nessas primeiras semanas de exibição da nova série, temos três novos heróis com nome de Gavan, além de um vilão — sem contar os outros dois Gavans que apareceram na visão de futuro do comandante Karel Qom Wigless.

Se você procurar nas redes sociais, vai encontrar vários comentários sem sentido sobre Gavan Infinity. O mais absurdo, vejam vocês, é dizer que o Gavan clássico era uma série “adulta”. Sério mesmo? Alguém pode me dizer qual episódio especificamente? Passou na madrugada da Globo ou em algum Cine Privê da vida? Brincadeiras à parte, Gavan era uma série voltada para o público infantil de 1982, tinha algumas situações de alívio cômico e seu roteiro ficou mais sério com o passar do tempo.

Aliás, Sharivan e Shaider foram as duas produções mais sisudas da saga dos Policiais do Espaço. Gavan Infinity pode ficar com um roteiro mais sério (como está acontecendo com Kamen Rider Zeztz, que é voltado especialmente para as crianças japonesas)? Pode, mas não como nos anos 1980. Forget it! Os tempos são outros. Há um abismo muito grande entre contextos, estilo de narrativa, produção e efeitos especiais de hoje e de 44 anos atrás. E torço pra que Gavan Infinity fique mais sério mesmo, mas não como no passado distante.

O grande erro de boa parte desses saudosistas de internet é fazer esse tipo de comparação e esperar que Gavan Infinity tenha lutas na pedreira, trucagem de câmera e efeitos especiais datados. Forget it! (2) Acordem pra vida! Esse papo é o mesmo da época em que Gavan, Sharivan e Shaider eram chamados de “imitação do Jaspion” por pura desinformação. Informação não falta, essa birra é um pretexto para implicar com a nova série.

E tudo bem se você gostar de Gavan Infinity. Mas que tal apreciarmos a nova série, abrirmos um pouco mais a mente e entendermos que tokusatsu é, majoritariamente, uma produção voltada para vender brinquedo, como sempre foi? Não que um adulto como eu e você não possamos curtir. Muito pelo contrário, tokusatsu também é uma produção voltada para a família. Sempre houve e sempre haverá algum adulto que vai curtir esse tipo de produção.

E é preciso deixar claro: Garo é um tokusatsu voltado para o adulto — exibido tarde da noite, inclusive. Há um abismo muito grande entre as produções desta franquia e as outras do gênero, por motivos óbvios. Portanto, não dá pra dizer que Gavan é uma série “adulta”. Ela só é mais dramática ao estilo oitentista. Aceite.


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