Ultra Q – o clássico que precedeu Ultraman (feat. TokuDoc)

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O kaiju Garamon em imagem promocional da primeira série Ultra

Conhecido pela parceria com o diretor Ishiro Honda e com o produtor Tomoyuki Tanaka no estúdio Toho, o diretor de efeitos especiais Eiji Tsuburaya resolveu criar o sua própria produtora. A Tsuburaya Productions foi inaugurada em 1963 e seguiria o conceito de produções do gênero kaiju na TV. Enquanto isso, o chamado “kaiju boom” era um fenômeno visto apenas no cinema japonês com Godzilla, Mothra, entre outros.

A Tsuburaya ficaria conhecida a partir de 1966 através de um dos grandes clássicos da cultura pop: Ultraman. A série deu origem a outras como Ultra Seven, O Regresso de Ultraman, Ultraman Ace e mais produções que ajudaram a formar o conceito da irmandade Ultra ao longo das últimas cinco décadas. Mas antes do herói da Nebulosa M-78 vir à Terra, existia um trio que investigava fenômenos sobrenaturais, invasões alienígenas e até casos sobrenaturais.

Totalizando 28 episódios, Ultra Q foi a primeira série Ultra da Tsuburaya.  Foi exibida no extinto bloco Takeda Hour, da emissora japonesa TBS,  nas noites de domingo entre 2 de janeiro e 3 de julho. Apenas o último episódio foi exibido mais tarde, em 14 de dezembro de 1967.

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Yuriko, Jun e Ippei – o trio investigativo

Com episódios em preto-e-branco, Ultra Q contava sobre um trio de investigadores de casos que vão além da compreensão humana. Os protagonistas eram a dupla de aviadores Jun Manjome (Kenji Sahara) e Ippei Togawa (Yasuhiro Saijou) — ambos do serviço aéreo Hoshikawa e a repórter Yuriko Edogawa (Hiroko Sakurai), do jornal Mainichi News.

O ator Kenji Sahara era anteriormente o astro principal de filmes kaiju como Rodan!… O Monstro do Espaço, Os Bárbaros Invadem a Terra e o Monstro da Bomba H. Já a atriz Hiroko Sakurai se consagrou no mesmo ano como Akiko Fuji, a agente feminina da Patrulha Científica em Ultraman.

Os aliados do trio são o cientista Dr. Ichinotani, vivido por Ureo Egawa (1902~1970) e Seki, o editor-chefe do Mainichi News, vivido por Yoshifumi Tajima (1918~2009). Este último atuou em diversos filmes kaiju/tokusatsu produzidos na era de ouro da Toho.

Ultra Q testou na TV o formato já conhecido no cinema como maquetes, trucagens de câmera e efeitos especiais próprios através de histórias onde os próprios humanos tinham que lhe dar com casos como um macaco gigante (oozaru), uma enorme flor mamute, desaparecimento de seres humanos, exploração da quarta dimensão, invasão alienígena, fantasmas, entre outras bizarrices mirabolantes para conquistar a humanidade. Alguns episódios não contam com a presença de kaijus, fugindo um pouco da fórmula que ajudou a criar o programa dominical. Curiosamente, o episódio 15 é o único onde os protagonistas não aparecem. Dando lugar a um alívio cômico que contava a história de um garoto que misteriosamente se transformou no monstro Kanegon e que precisava se alimentar de moedas para sobreviver.

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Gomess e Litra foram os monstros do episódio de estreia

Alguns monstros que aparecem em Ultra Q ganham contrapartes em outras séries Ultra. São eles: Gomess, Litra, Juran, Peguila, M1, Kanegon, Garamon, Semi Ningen, Kemul e Ragon. Alguns outros apareceram uma única vez na série. Curiosamente, o Alien Keel é apenas mencionado no episódio 21. Porém essa raça alienígena foi explorada em Ultra Galaxy Mega Monster Battle: Never Ending Odyssey (de 2008).

A média de audiência de Ultra Q foi de 32.4%. Um número bem maior se compararmos com os padrões atuais. A escassez de emissoras da época e o horário nobre dominical das 19h também são fatores importantes. O episódio 13 foi o de maior audiência, totalizando 39.2%. O episódio 21 teve a menor audiência no horário regular, com 26.9%.

Estiveram também em participações especiais alguns atores que mais tarde estrelariam na série Ultraman. Susumu Kurobe (Hayata), Akiji Kobayashi (in memorian; Capitão Muramatsu), Bin Furuya (o dublê de Ultraman) e Masanari Nihei (Ide). Furuya foi o dublê dos monstros Kemul (episódio 19) e Ragon (episódio 20), além de interpretar civis nos episódios 4 e 24 (sem nome creditado). Nihei interpretou diferentes personagens nos episódios 2, 6 e 15. Haruo Nakajima, o primeiro e o mais famoso dublê de Godzilla, interpretou os monstros Gomess (episódio 1) e Pagos (episódio 18). Também esteve no episódio 8 como um capitão da polícia de Ibaraki. Outra menção importante vai para o eterno astro dos filmes kaiju Akihiko Hirata (1927~1984), que ficou conhecido entre os mais aficionados como o Dr. Serizawa do primeiro filme de Godzilla.

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O monstro congelante Peguila

Concepção apurada

No início da Tsuburaya Productions, uma parceria estava prestes a ser fechada entre a emissora japonesa TBS e a empresa farmacêutica Takeda para a exibição de uma nova série no bloco dominical Takeda Hour. O mesmo esteve no ar entre 3 de outubro de 1955 e 31 de março de 1974. Por lá também foram exibidas séries tokusatsu como Gekko Kamen (de 1958), Jaguar no Me (de 1959), Onmitsu Kenshi (1962), Captain Ultra (1967), Kaiki Daisakusen (1968), Silver Kamen (1971) e Iron King (1972). Alem, é claro, de Ultraman (1966) e Ultra Seven (1967).

Ao retornar de viagem, o roteirista Tetsuo Kinjo criou um projeto para uma série de TV chamada Unbalance. O enredo era sobre uma rebelião de monstros causada por consequência humana. A inspiração era das series americanas Além da Imaginação (de 1959) e A Quinta Dimensão (de 1963). Kinjo escreveu sinopses de três episódios: “Mammoth Flower”, “Metamorfose” e “A vingança do polvo gigante”. Este último foi baseado numa proposta inicial para o filme que se tornou o Godzilla original. Uma equipe de escritores foi aproveitada para trabalhar com Kinjo e escrever novas sinopses.

Um segundo esboço para o projeto Unbalance foi feito e criou os personagens principais. Jun Manjome teria 25 anos de idade e seria um automobilista entusiasta que possuiria um “supercarro” voador. Ippei seria apelidado de “Tigre” e era também parceiro de Manjome, adolescente, forte e sempre pronto. Já Yuriko seria notadamente a namorada de Manjome e teria apenas 19 aninhos. O Dr. Ichinotani teria 58 anos e seria um orientador científico e intelectual. A ideia inicial era para ele ser equivalente ao astro Rod Serling (1924~1975), criador e apresentador de Além da Imaginação.

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O elenco da série junto com o criador Eiji Tsuburaya e os monstros Kanegon, Garamon e Peguila

Enquanto a TBS planejava o lançamento da nova série para abril de 1965, mudanças foram acontecendo até chegar à definição da série. A ideia do “supercarro” de Manjome foi descartada e agora ele se tornaria um piloto de um avião da linha Cessna para o serviço aéreo Hoshikawa, além de ser escritor amador para a Mainichi News. Yuriko Kurakata (sobrenome inicial) passou a ter uma importância maior ao se tornar uma fotógrafa da Mainichi News. E Ippei Togawa seria o ajudante de Manjome na empresa Hoshikawa e alívio cômico. Dr. Ichinotani continuaria sendo um cientista intelectual, mas o seu estilo Rod Serlling foi abandonado. A narração seria feita pelo popular comunicador Koji Ishizaka, que atua até os dias de hoje no Japão.

Durante as primeiras campanhas publicitárias, a Tsuburaya decidiu não usar o título Unbalance por julgar “não ser tão adequado” e sentir que outra palavra inglesa deveria ser parte do título. Nas Olimpíadas de 1964 em Tóquio, o ginasta Yukio Endo (1937~2009) conquistou três medalhas de ouro e uma de prata com sua manobra com barras paralelas chamadas de “Ultra C”. O termo tornou-se uma palavra comum devido ao uso frequente do locutor da NHK, Bunya Suzuki, que gritava “ULTRA” toda vez que o ginasta japonês alcançava notas altas. “Ultra” tornou-se uma forte palavra-chave no Japão.

Kaichi Iwazaki, do departamento de produção da TBS, sugeriu que a nova série pudesse captar essa palavra. A Tsuburaya pensou que a letra “Q” era perfeita para combinar com a palavra “Ultra”, que poderia representar as palavras “Question” e “Quest”. A letra Q ainda seria uma boa escolha, uma vez que a TBS apresentava o anime Obake no Q-Taro (do mangaká Fujiko Fujio) na segunda meia hora do bloco Takeda Hour, entre 19h30 e 20h. Assim nascia a série Ultra Q (ou “Ultra Question” como ficou conhecido nos bastidores).

O título Unbalance foi utilizado anos mais tarde para a série de terror Kyofu Gekijo Unbalance. Os 13 episódios desta produção tokusatsu da Tsuburaya foram exibidos nos finais de noite de segunda-feira na Fuji TV entre 8 de janeiro e 2 de abril de 1973, na faixa das 23h15.

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Já vimos essa cigarra humana em algum lugar, não é?

A experiência de Eiji Tsuburaya como cineasta e sua estreita relação com a Toho (o estúdio também foi investidor da Tsuburaya Pro), foram importantes para o reaproveitamento de trajes e adereços utilizados nos filmes kaiju da “casa” de Godzilla. São exemplos: o traje de King Kong (Godzilla vs. King Kong, de 1962) usado para o kaiju Goro no episódio 2, a cabeça de Manda (Atragon, de 1963) para a parte frontal de um navio viking no episódio 12, além de acessórios reformulados como os trajes de Godzilla para Gomess (episódio 1), Baragon (Frankenstein vs. Baragon, 1965) para Pagos (episódio 18) e um pequeno suporte de Rodan para os monstros Litra e Largeus (episódios 1 e 12, respectivamente).

Curiosamente o capacete de Semi Ningen (algo como “Cigarra Humana”) e o traje de alienígena Kemul, respectivamente dos episódios 16 e 19, foram reaproveitados para a criação do Alien Baltan. Um dos grandes vilões do Ultraman original e um dos mais famosos da franquia.

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Pôster do filme Ultra Q The Movie: Legend of the Stars

Legado

Ultra Q rendeu um filme produzido pela Tsuburaya em 1990 chamado Ultra Q The Movie: Legend of the Stars. Os inimigos da trama eram os aliens Wadatuzin que controlavam telepaticamente o kaiju Nagira, de 50 metros de altura. Dentre o elenco estão os atores Susumu Kurobe, Sandayu Dokumamushi (Arashi em Ultraman e Furuhashi em Ultra Seven), além dos falecidos Akiji Kobayashi e Hiroshi Tsuburaya (in memorian; o Shaider original da série de 1984).

Entre 2003 e 2004, houve um programa de rádio chamado Ultra Q Club que contou com a participação do trio de astros principais. Em 2004, a Tsuburaya produziu a série Ultra Q: Dark Fantasy, de 26 episódios. Exibido nas madrugadas de terça para a quarta, à 1h da manhã, na TV Tokyo. Além da série Neo Ultra Q, de apenas 13 episódios exibidos aos sábados às 21h pela emissora paga WOWOW.

Em 14 de janeiro de 2006, mais precisamente no episódio 29 de Ultraman Max, acontece uma homenagem aos 40 anos de Ultra Q. Hiroko Sakurai já estava no elenco regular da série como Yukari Yoshinaga, um membro da supervisão do esquadrão anti-monstros DASH. A ocasião contou com a participação especial de Kenji Sahara e Yasuhiko Saijou que interpretaram contrapartes de seus respectivos personagens da época da série clássica.

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“Desafio do ano 2020”, o episódio 19 de Ultra Q, ganha relançamento especial para a nova geração de fãs

Durante os anos 90, a Tsuburaya tinha planos para lançar uma versão colorida de Ultra Q, mas o projeto foi cancelado. Somente em 2011 isso foi concretizado através do lançamento em DVD e em BD da série com remasterização digital. Um presentão para os fãs (japoneses) comemorarem os 45 anos de Ultra Q.

Apostando no legado de séries clássicas para a nova geração, a Tsuburaya inaugurou em 17 de novembro de 2018 o projeto ULTRAMAN ARCHIVES que conta com exposições de acervos de imagem, fotografias, entrevistas com a equipe de produção e críticas e depoimentos de fãs e artistas. Para abrir com chave de ouro, aconteceu a exibição do episódio 19 de Ultra Q – “Desafio do ano 2020” – que conta com materiais exclusivos para o público japonês (mais detalhes na edição 19 da Coluna do Daileon, via site JBox).

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O super trem Inazuma foi cenário de um incidente em um dos episódios

Meio século atrás

Ultra Q foi a segunda série Ultra exibida aqui no Brasil. Estreou na TV Bandeirantes em 22 de novembro de 1968, indo ao ar às sextas-feiras a partir das 19h. Portanto, esta resenha está sendo publicada na data em que se completam 50 anos de lançamento deste importante clássico na TV brasileira. Ultraman estreou seis meses antes, precisamente em 22 de maio daquele ano através da TV Rádio Clube de Pernambuco, uma retransmissora da extinta Rede Tupi em Recife (atual RedeTV! Recife). Sendo que a série do herói gigante já pertencia à Bandeirantes, que cedia para outras emissoras naquele tempo.

Informações precisas sobre as datas de lançamento das séries Ultra no Brasil ficaram perdidas por várias décadas e tais foram resgatadas recentemente. Mas para saber quais são elas, você terá que adquirir o livro Ultraman, escrito pelo meu amigo Danilo Modolo do canal TokuDoc e publicado pela Editora Estronho, que traz também curiosidades e entrevistas sobre um dos maiores heróis do gênero tokusatsu. O prefácio é assinado pelo mestre Alexandre Nagado, antigo redator de mídias sobre cultura pop como a revista Herói e o site Omelete (leia sua resenha sobre o livro aqui).

Antes mesmo da importância do herói da Nebulosa M-78, Ultra Q é uma obra que não pode ficar de fora da lista dos amantes de tokusatsu e de estudo sobre cultura pop japonesa. A série gerou um enorme impacto na TV local e ditou o critério das produções de tokusatsu que influenciam até hoje nas produções do gênero. Não perca as aventuras que irão deixar os seus olhos longe do corpo e que irão lhe apresentar um lugar misterioso entre o espaço-tempo.

Créditos: Matheus Mossmann, Danilo Modolo e August Ragone

Um convite para um mundo desconhecido

Por Danilo Modolo (canal TokuDoc)

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Danilo escreveu um livro sobre o Ultraman

Quando fui convidado a escrever esse release de opinião pessoal sobre o Ultra Q, achei um pouco estranho. Pois apesar de ter escrito um livro sobre seu sucessor, o primeiro Ultraman, não é uma serie frequentemente abordada, exatamente por não sentir o interesse do publico de tokusatsu brasileiro.

Mas isso pode mudar caso saibam a importância dessa produção. Assim como muitos, eu tive um pouco de “preguiça” de assistir Ultra Q. Afinal, uma série de 1966, em preto e branco, nos moldes antigos de produção, hoje chamados de toscos (ou clássicos, para os amantes da arte) não me atraía. Levando em consideração o que sempre assisti cheio de cores ou velocidade.

Ultra Q é uma série típica da sua época, com um problema, investigação, mistérios, ápice e alivio cômico pra finalizar.

A excelente ideia de juntar mistérios e monstros (sendo gigantes, melhor ainda) bate perfeitamente no gosto dos amantes de tokusatsu. A diferença é que não dependemos do herói de altura monumental pra salvar o dia, mas sim dos próprios humanos.

Ultra Q reflete e nos leva diretamente ao que vimos em Ultraman e todo o universo que esse herói criou. A série é um embrião. Um delicioso embrião, lento, atrativo e cheio de inspiração em produções americanas da época.

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A invasão do monstro M1

Mais do que repetir que Pigmon, Garamon (ou seres dessa espécie) são vistos com frequência para fazer um link entre as séries Ultra. Se você está mais acostumado com heróis atuais, destaco um link interessante para que você assista duas séries distantes, mas conectadas. Em Ultraman X, de 2015, o episódio 19 é continuação direta do episódio 10 de Ultra Q, onde revemos o “macaco” M1.

Fica a dica: sem Ultraman, o tokusatsu não seria o mesmo. Sem Ultra Q, nem teríamos Ultraman e nada seria como é hoje!

Escrevi um livro sobre o primeiro Ultraman onde comento sobre o começo da franquia com essa pérola chamada Ultra Q. Se tem interesse e ainda não leu a obra, o convite está feito mas uma vez.


2 comentários sobre “Ultra Q – o clássico que precedeu Ultraman (feat. TokuDoc)

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