Em nova entrevista, “pai dos animes” afirma ter anunciado série que estreou no Japão após a extinção da Manchete

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Miranda em maio de 1999, numa das últimas edições do Jornal da Manchete | Reprodução

No final de dezembro escrevi esse texto onde analisei algumas das afirmações do sr. Eduardo Miranda, que leva a alcunha de “o pai dos animes no Brasil” e afirma ter trazido séries de animê e tokusatsu para a Manchete. O texto repercutiu nas redes sociais. Miranda participou do podcast Henshin Rio nesta sexta (17) para tentar se explicar.

Separei aqui oito trechos das afirmações de Miranda nesta entrevista e cada uma delas terá uma breve análise histórica. Confira:

 

Primeiro e último episódios

Eu sentia que muitas vezes que as séries não me mostravam o primeiro episódio, a gente evitava passar o primeiro episódio e evitava passar o último episódio. E pra mim isso era muito incômodo.

Todas as séries japonesas exibidas pela Manchete tinham sim a exibição do primeiro episódio de cada. Sobre os episódios finais, tanto o sr. Toshihiko Egashira (dono das extintas Everest Vídeo e Tikara Filmes) quanto o sr. Nelson Sato (dono da Sato Company) já afirmaram em entrevistas que a Manchete tinha como estratégia segurar o último episódio e guardar para um momento posterior. Com isso, as séries mais prejudicadas foram Jiban, Cybercop, Spielvan, Kamen Rider Black, Kamen Rider Black RX e Patrine.

Todas essas séries tokusatsu tinham seu começo, meio e fim.

 

Duração do final de Kamen Rider

Eu também fico bugado, porque eu como editor na época, eu cansei de mostrar pra programação que era possível a gente fazer um episódio um pouco maior pra ter todo essa continuação dela.

Originalmente, cada episódio de Kamen Rider Black tinha a duração de 24 minutos e meio, desconsiderando intervalos comerciais. O preview de Black RX que aparece no episódio 51 tem apenas 15 segundos e também foram inseridos originalmente nos episódios 48 ao 50. A Manchete jamais exibiu o encerramento e os previews da série.

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O final inédito de Kamen Rider Black | Reprodução

 

Kamen Rider na Globo?

Eu tive que colocar o Dragon Knight americano porque a Globo tava na vibe de Power Rangers. Então ela olhou o (seriado) japonês e torceu o nariz.

A única série original japonesa de Kamen Rider da era Heisei que foi cogitada para passar na TV brasileira foi Kamen Rider Kuuga, de 2000. Luiz Angellotti, o atual agente licenciador da Toei, já falou em entrevista para o canal JBox TV sobre a tentativa de inserir este título na TV brasileira.

Depois da tentativa frustrada de Kuuga, nenhuma outra série original de Kamen Rider foi sondada para o Brasil. Kamen Rider: Dragon Knight (adaptação americana de Kamen Rider Ryuki) passou por aqui ainda em 2009, mesmo ano em que era exibida nos EUA e em outros países.

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Imagem da revista Anime Kids (Ed. Escala, set/2002) sobre a estreia de Kamen Rider Kuuga no Brasil — que jamais aconteceu | Reprodução/JBox TV

 

Grade de programação

Quando você fala um dado de jornal, um dado frio de noticiário, as pessoas tem que lembrar que a Rede Manchete não estava bem em 93 e ela foi até 99 se arrastando, praticamente. Eram tempos muito difíceis. O que nós passávamos pro jornal em termos de programação fechada, porque a gente tinha que passar, nem sempre a gente tinha que cumprir.

Após a crise da emissora na gestão da IBF, o saudoso Adolpho Bloch reassumiu a Manchete, que continuou produzindo programas como a novela Guerra Sem Fim, no final de 1993, além de ter comprado séries de animê e tokusatsu nos anos seguintes e informava regularmente a programação. Como em qualquer emissora, a Manchete informava as mudanças da grade.

Sobre usar um dado de jornal, não quer dizer que a informação seja fria, desde que na época houvesse alguma desatualização. Quando uma emissora não envia sua programação para a semana seguinte, o jornal pode repetir a grade (mesmo que esteja defasada) como também ele pode informar que a emissora não enviou a programação. Jornais podem errar, é óbvio, mas não são por causa de crises como essas que aconteceram na Manchete que você não tem mais porque pesquisá-los, não é? Independente de crises, a Manchete mantinha sua qualidade e cumpria sua programação, mesmo que tivesse que colocar uma maratona de infomerciais e repetecos de seriados japoneses.

 

Sailor Moon antes de Patrine?

Se eu me lembro que Patrine passou antes ou depois de Sailor Moon, na minha memória afetiva, naquela minha memória do que eu trabalhava, do que eu botava ali na listinha pra levar pra grade de programação, eu me lembro que durante os contratos que eu autorizei artisticamente, Patrine veio depois de Sailor Moon e eu coloquei com muito medo. Porque Sailor Moon, pra mim, tinha sido um fracasso.

Segundo o sr. Luiz Angellotti para o canal JBox TVNão existe problema com relação à Sailor Moon. Ela tem um potencial muito grande, só que ela vem numa velocidade um pouco diferente.

Patrine estreou na Manchete em 4 de julho de 1994 e Sailor Moon em 29 de abril de 1996. Eduardo Miranda assumiu a Divisão de Cinema da Manchete em 1993. Sailor Moon teve mais popularidade no Brasil e outras temporadas foram exibidas no Cartoon Network e na Record. Também tivemos o mangá da série publicado pela Editora JBC.

O fracasso de Patrine já foi comentado pelo próprio sr. Toshi em entrevista para o JBox TV.

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Sailor Moon é mais popular que Patrine no Brasil

 

Detalhistas malucos?

Se aquele produto ali começasse a dar errado como foi Sailor Moon, que eu lutei até o mais amargo fim pra aquilo ali dar certo, colocando ele, chegando a colocar ele… Agora vem os detalhistas malucos que vão pegar a grade de programação. ‘Não, ele está mentindo. Sailor Moon nunca veio depois de Cavaleiros e antes de Yu Yu.’ Cara, não sei.

Sobre o termo “detalhistas malucos“, isso é relativismo contra registros de programação de TV e fatos históricos. Contra fatos não há argumentos.

Em tempo: Os Cavaleiros do Zodíaco estreou em 1º de setembro de 1994, Sailor Moon em 29 de abril de 1996 e Yu Yu Hakusho em 24 de março de 1997.

 

Pokémon na Manchete?

Tentaram em 98 colocar o Pokémon. Cara, quase que eu tive Pokémon. Falei com o distribuidor. Ele estava muito animado pra colocar Pokémon lá na emissora. Aí o comercial tava alinhando o contrato, já tava dando quase tudo certo e aí aquelas 750 crianças no Japão tiveram aquele ataque epilético. Anunciaram no Jornal Nacional e eu sou obrigado a ir pro Jornal pra garantir que a gente não passaria Pokémon. […] Perdi pra Record. Esse episódio 39, que foi corrigido, toda a série foi corrigida, a Manchete não quis botar o dedo dela nisso.

Em 1998, a Manchete estava voltada para as transmissões da Copa do Mundo na França e investiu pesado na produção da novela Brida, que foi o pivô da crise que acabou com a emissora no ano seguinte.

O episódio 38 (e não 39) de Pokémon foi exibido em 16 de dezembro de 1997 e foi banido mundialmente após o incidente. Febre no Brasil, o animê estreou na Record em 10 de maio de 1999, ironicamente no mesmo dia em que a Manchete foi vendida para o grupo Tele TV.

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Pokémon estreou na Record no mesmo dia da extinção da Manchete

 

Love Hina na Manchete?

“E o outro (anime) era um que um menino ficava dentro de um reformatório de meninas. […] Love Hina! É isso! Anunciei Love Hina! Só que, cara, quando eu parei pra ver Love Hina eu quase dormi.

Ah, essa sim é a pérola das pérolas, meus amigos. Love Hina estreou no Japão numa quarta-feira, 19 de abril de 2000. Ou seja, 11 meses e 9 dias depois da extinção da Manchete (!). Máquina do tempo??? DeLorean??? Almanaque 2000??? Realidade paralela??? Digam aí nos comentários.

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Love Hina estreou 11 meses depois da extinção da Manchete

13 comentários sobre “Em nova entrevista, “pai dos animes” afirma ter anunciado série que estreou no Japão após a extinção da Manchete

  1. Fala, César! Cara, impressionante como ele fala bobagens para se promover, para posar de pessoa influente e cantar de galo. Eu acho que as pessoas que dão palco e microfone para ele são cúmplices na mentira. Uns dizem pra ignorar, mas como ignorar quem está sempre aparecendo pra contra mentiras e fazer autopromoção. Nós, que lidamos com informação, temos que nos manifestar sim.

    Parabéns pelo trabalho!
    PS: E para quem não leu meu texto ainda, eis o link: http://nagado.blogspot.com/2020/01/o-pai-dos-animes-no-brasil-e-outros.html

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  2. Que loucura. Sejamos sinceros: não dá pra ficar colocando palco pra um cara com este. Ele é totalmente surreal nas declarações. Ele quer se promover a todo custo no legado da Manchete, mas sem ao menos ser honesto.

    Fica óbvio que a influência foi praticamente nula no meio dos Animes e Mangás, ele só era apenas um funcionário que cuidava da programação, só isso.

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  3. Sempre foi publicado pela imprensa que Sailor Moon tinha audiência satisfatória, mesmo com as inúmeras reprises. Falam que não vendeu brinquedos, mas eu morava numa cidade grande e NUNCA vi nenhum brinquedo da série, só pirataria mesmo. O problema foi a falta de planejamento mesmo.

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