
De longe, o Brasil é um dos países que, fora do Japão, mais concentram fãs de tokusatsu. Mas a França também tem uma curiosa história com esse gênero de produção. Nesta quarta (3), o canal TokuDoc, do amigo Danilo Modolo, em parceria com o amigo e conterrâneo Rafael Ribeiro, publicou o primeiro vídeo de uma série que conta a história do tokusatsu na França.
E por que falar sobre tokusatsu na terra da Torre Eiffel? Porque o assunto rende muito pano pra manga, muito para explorar e muito para discutir com outros fãs. O contexto histórico é bem diferente do nosso país e lá também teve seus altos e baixos. As curiosidades que serão publicadas nas próximas semanas prometem surpreender o público brasileiro.
Rafael esteve em Paris no dia 15 de dezembro de 2025, quando entrevistou cinco produtores de conteúdo para um papo que teve cerca de três horas de duração. Eles são:

- Fabien Mauro, co-criador do canal Toku Scope e autor de duas obras sobre ficção científica japonesa: Ishiro Honda: Humanisme Monstre e Kaiju, Envahisseurs & Apocalypse: L’age d’or de la Science-Fiction Japonaise.
- Jordan Guichaux, criador e coapresentador do canal Toku Scope que já escreveu artigos sobre a franquia Godzilla em revistas na França.
- Adrien Maurizi, coapresentador do Toku Scope que havia entrado no projeto como técnico de vídeo. Atualmente, trabalha como produtor de vídeo para redes sociais e para o YouTube.
- Marvin Ringard, antigo produtor de conteúdo para o canal Toku Hill Zone, no YouTube, e autor do livro Le Guide du Tokusatsu, publicado pela editora francesa Ynnis.
- Romain Taszek, ilustrador que atuou em parceria com Ringard na publicação de Le Guide du Tokusatsu.
Todos os cinco têm histórias parecidas e ligadas à história do tokusatsu na França. As duas produções japonesas mais conhecidas no país são Bioman (série Super Sentai de 1984) e Gavan (a primeira série Metal Hero, de 1982). Curiosamente, Gavan teve esse nome inspirado no ator francês Jean Gabin (1904~1976). Porém, quando a série chegou à França, não aconteceu essa retribuição.
Na pronúncia francesa, a tendência seria que Gavan fosse chamado de “Gavôn”. Mas, no contexto histórico do país, que já tinha o costume de adaptar nomes para o francês, isso era bem comum. Mesmo com a origem francesa no nome de Gavan, o personagem acabou sendo rebatizado com o bizarro nome X-Or (leia: “Icsór”). A inspiração veio de uma (pasme!) categoria de conhaque chamada XO (Extra Old).

A ideia veio por parte de Bruno-René Huchez, dono da distribuidora IDDH, que tinha a fama de “arranjar” a realidade à sua maneira. Talvez Huchez tenha inventado essa história para se promover, mas isso não é um fato concreto, embora as evidências apontem para essa direção.
Pra se ter uma ideia, Retsu Ichijoji, o nome civil de Gavan (interpretado pelo saudoso Kenji Ohba), foi adaptado na França como “Gordan”, que de alguma maneira se aproxima mais do codinome do herói japonês. Por outro lado, Don Horror, o vilão que comanda o grupo Makuu, foi chamado de “Louis BMX-11” na dublagem francesa.
Os primeiros oito episódios de Sharivan serviram como complemento de X-Or, mantendo os créditos de abertura da série anterior e renomeando o personagem principal para X-Or 02 (ou X-Or Deux). Por outro lado, a dublagem francesa de Sharivan suprimiu a conexão com Gavan, que não fez nenhuma referência a ele como “X-Or”, já que a versão francesa foi realizada por outra empresa de dublagem.
Ou seja, o primeiro Policial do Espaço foi referenciado apenas como “Le Commandeur” (O Comandante). Aliás, é algo meio parecido com o que ocorreu nos primeiros episódios da dublagem brasileira de Sharivan, nos quais Gavan foi chamado apenas de “Capitão”. Demorou um certo tempo para ele ser chamado de “Capitão Gyaban” na versão da extinta Álamo.

Voltando a falar sobre a França, os nomes das séries tokusatsu têm pronúncias diferentes por lá. Bioman (leia: Baioman) é dito como “Bío-mán”. Diferença essa bem visível se compararmos os temas musicais originais com os temas franceses dessa série Super Sentai — que virou um sinônimo da franquia japonesa ou mesmo daquela geração francesa dos anos 1980.

Talvez o termo mais diferente seja San Ku Kaï (leia: “San Ku Kei”), que foi a adaptação francesa para Message from Space: Galactic Wars (Uchuu kara no Message: Ginga Taisen), série tokusatsu de 1978 que foi o spin-off do filme Mensagem do Espaço, também do mesmo ano. Ringard explica que “não existe um real significado para San Ku Kaï. Eles tentaram encontrar algo que soasse exótico”. Como se trata de uma saga inspirada em Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança (1977), essa foi a saída que os distribuidores encontraram para deixar o material mais “acessível” ao público.
Mesmo com a “tradição” de adaptar os nomes dos personagens para o francês, Hayato, o herói principal da trama (interpretado pelo lendário Hiroyuki Sanada, da premiada série Xógum: A Gloriosa Saga do Japão), foi chamado de Ayato (sem o H no nome). Mas os vilões mudaram de nome, como é o caso do Império Gavanas, que foi rebatizado como “Stressos”.
A série de 1990 da franquia Toei Fushigi Comedy Series, Patrine, teve seu nome de origem francesa: Poitrine — que significa “peito”. Se fosse exibida na França, certamente Patrine receberia outro nome, por motivos óbvios.
Enfim, essas adaptações, por mais esquisitas que sejam, são apenas a ponta do iceberg de uma história bem curiosa da França com o gênero tokusatsu. Algo parecido com o Brasil, mas com suas peculiaridades. É esperar pra ver o que vem a seguir.
Assista ao primeiro vídeo dessa série sobre tokusatsu na França via canal TokuDoc:
*Agradecimentos ao Rafael Ribeiro.