Memória: a estreia definitiva da Record em Fortaleza há 30 anos

Arquivo X era o carro-chefe das séries exibidas na Record em 1996 | Divulgação: Fox

Lembra que publiquei este texto sobre meu primeiro (e brevíssimo) contato com a Record em agosto de 1995? Pois é. Foram apenas 3 dias no ar, no final de semana do dia dos pais e depois saiu do ar novamente. Aquela passagem era apenas um teste. O suficiente para “explodir a cabeça” deste que vos escreve, quando era apenas um menino.

Desde então, eu ficava observando o canal 14 para ver se a Record voltava mesmo ao ar (no fundo, eu sabia que voltaria). Um dia, também numa sexta-feira à tarde, em dezembro de 1995, consegui sintonizar um sinal limpo da Record pelo canal 14 por uns dois minutos. Estava passando o programa Tarde Criança com Mariane. Mas o sinal saiu do ar novamente e ficou assim até meados do segundo semestre de 1996.

Durante o período eleitoral da época, o canal 14 passou a exibir as famigeradas barras de cor. O que prendia a atenção do espectador da capital cearense era a presença de uma boa música instrumental, especialmente do pianista francês Richard Clayderman e as canções do álbum 16 Momentos Inesquecíveis (1981) — aliás, esse foi o primeiro CD adquirido pelo meu pai no começo dos anos 1990.

Todo esse tormento acabou — pelo menos para este que vos escreve — até exatos 30 anos atrás. Como prometi 15 meses atrás, cá estou de volta para contar o resto das minhas memórias sobre a inauguração da Record em Fortaleza, em uma época em que a emissora do bispo era referência de séries que hoje são clássicas.

Matando aula para a grande estreia

No sábado, 2 de novembro de 1996, após visitar a família de minha mãe, meu pai, que ficou em casa, estava ouvindo a Rádio Record de Fortaleza (AM 760; atual Rádio Uirapuru). Ele ouviu o anúncio da estreia da Record, em sinal aberto pelo canal 14 UHF. Particularmente, nunca ouvi esse anúncio, mas fiquei feliz quando ele me contou.

A estreia estava marcada para segunda-feira, 4 de novembro de 1996, às 8h da manhã. Na época, eu estudava pela manhã. Eu disse para o meu pai, sem pensar duas vezes: “não vou pra escola nessa segunda”. E realmente fiquei em casa para acompanhar a estreia (não cometam essa loucura, crianças). Outro detalhe é que o horário de verão já estava operando em boa parte do Brasil. O Nordeste era exceção, por ter cerca de 12 horas de luz solar. O Ceará fica a dois graus abaixo da linha do Equador e nunca teve necessidade de ter horário de verão — apesar de que já tivemos em algumas edições.

As barras coloridas permaneceram no ar até às 8h da manhã — 9h pelo horário brasileiro de verão* — quando foi ao ar a vinheta pré-programa da Record, e o início do Note & Anote, programa de variedades apresentado na ocasião por Ana Maria Braga. Em seguida, às 13h15, ia ao ar o programa de culinária Forno, Fogão e Cia. Até aí, nada de tão interessante para os infanto-juvenis. Mas o mais interessante vinha logo na sequência.

*Nota: os horários mencionados da programação da Record são do horário oficial de Brasília.

Às 13h45, ia ao ar o desenho Bill Body, produção suíço-alemã que foi ao ar originalmente entre 1992 e 1993. Curiosamente, o próprio personagem-título apresentava o desenho em formato de fantoche, com cenas inteiramente brasileiras. Bill Body ficou no limbo de esquecimento, mas era até um desenho legal. Uma pena que não teve uma grande projeção. Bill Body é um esportista que mora com seus amigos em Body Island, onde toda a sociedade é baseada em esportes. Ele tenta dominar o máximo de esportes possível, mas sua falta de jeito, má sorte e excesso de confiança costumam atrapalhar.

Em seguida, ia ao ar o Agente G, produção original apresentada pelo saudoso Gérson de Abreu (também conhecido pela fase clássica do X-Tudo, na TV Cultura). Cheguei a assistir um episódio do Agente G quando a Record esteve no ar aqui em Fortaleza, no dia 11 de agosto de 1995, durante a tal fase de testes mencionada acima. Curiosamente, a versão de 1996 do Agente G contava também como atração As Novas Aventuras do Gato Félix.

Para minha surpresa, às 15h15, ia ao ar o programa Mara Maravilha Show, apresentado por Mara Maravilha, que eu já acompanhava desde o seu auge no SBT. Mara estava em sua fase gospel, algo que casava com o fato de a Igreja Universal ser a dona da Record. O único desenho exibido no programa era Rahan, o Filho dos Tempos Selvagens (1986).

Baseado nas HQs francesas da Éditions Vaillant, Rahan era um homem pré-histórico, de pele branca e cabelos loiros, que andava em busca do “caminho do sol” e sempre se deparava com situações perigosas em sua jornada. A série animada nunca teve desfecho e totalizou apenas 26 episódios. A dublagem de Rahan virou praticamente uma lost media. Pouquíssimos episódios são encontrados na internet com a versão realizada pela Dublavídeo. O dublador Afonso Amajones (Highter em Winspector e Solbraver em Solbrain) era quem emprestava a voz para Rahan, que também era conhecido como “cabelos de fogo”.

A programação da Record seguia com a Sessão Bang Bang (16h15), o programa policial Cidade Alerta (18h), o Jornal da Record (19h30; apresentado por Adriana de Castro) e o Informe SP (20h15; notícias locais direto de São Paulo). O mais interessante mesmo era a faixa de séries norte-americanas.

De segunda a sexta, às 20h30, ia ao ar o Zorro, a série clássica de 1957, produzida pela Disney e estrelada pelo saudoso Guy Williams (que interpretaria mais tarde o Professor John Robinson na série Perdidos no Espaço). A versão exibida na ocasião era colorizada por computador e, consequentemente, havia ganhado uma redublagem — com o saudoso Orlando Drummond emprestando sua voz mais uma vez ao Sargento Garcia.

Séries da faixa nobre

A faixa das 21h era ocupada pelo bloco Super Séries, que apresentava as séries do momento: Nova York Contra o Crime (segunda), O Quinteto (terça), Paixões Perigosas (quarta), Crime em Primeiro Grau (quinta) e Comando Espacial (sexta). Eram boas opções para quem queria fugir das novelas do horário.

A faixa nobre da Record apresentava programas variados como o esportivo Com a Bola Toda (segunda), o bloco de filmes de ação Campeões de Audiência (terça), o programa de auditório Especial Sertanejo (quarta) e o bloco de filmes Super Tela (quinta). Mas o que interessava mesmo era a programação das noites de sexta com Arquivo X, às 22h, e Chicago Hope, às 23h.

A madrugada seguia com as atrações da Igreja Universal. Começando com o programa de debate 25ª Hora (0h), seguido por Palavra de Vida (1h15) e Jesus Verdade (3h30).

As manhãs de sábado também eram loteadas por programas da Universal. Mas o grande destaque era, sem dúvida, o Gospel Line, programa de auditório comandado pelo cantor Nill (ex-Grupo Dominó), que apresentava os sucessos da música gospel que marcaram aquela época, como Melissa, J Neto, Cristina Mel, Leonor, Sérgio Lopes, entre tantos outros. Dentre os programas religiosos da casa, o Gospel Line era, de fato, um grande destaque da programação.

As tardes de sábado tinham como atrações os programas Edson Moura – Brasil Feliz (12h; musical), Campeonato Espanhol (14h; esportivo), Quem Sabe… Sábado! (16h, musical de auditório). A noite começava com os jornalísticos Cidade Alerta (18h), Jornal da Record (19h30) e Informe SP (20h15). A faixa noturna de sábado era formada pela série Residência Médica (20h30) e o Programa Ana Maria Braga (21h30; sim, além do programa diário, ela tinha seu próprio programa de auditório). Na madrugada de sábado para domingo ia ao ar o Palavra de Vida (0h) e a Sessão Transnoite com exibição da versão clássica de A Família Addams (4h).

As manhãs de domingo eram dos programas da Universal e até programas variados como Pesca & Cia e uns infomerciais. O interessante era que na faixa vespertina tinha o bloco Cine Maior, que apresentava filmes bíblicos a partir das 14h15, antes de transmissões esportivas. A programação de domingo chegava ao fim com o bloco de filmes Cine Record Especial, seguidos pelos famigerados programas da Universal na madrugada.

A programação de fim de ano da Record teve como destaques a exibição do filme Jesus de Nazaré (1977), dirigido por Franco Zeffirelli, apresentado na ocasião como minissérie em 8 capítulos na faixa das 21h, em dezembro de 1996 — e reprisado por décadas na Record em épocas de Páscoa e Natal. Foram também exibidos filmes como Força em Alerta (1992), estrelado por Steven Seagal e Tommy Lee Jones, além da minissérie Uma Fenda no Tempo, do mestre do terror Stephen King.

E as séries tokusatsu?

Uma das razões para eu querer assistir à Record era pelas reprises das séries tokusatsu. Porém, o gênero quase já não tinha mais espaço na programação. Aliás, nas manhãs de domingo, a Record chegou a exibir uma dobradinha de Sharivan e Machineman entre meados de dezembro até 5 de janeiro de 1997 — quando foram substituídos por um programa sertanejo.

Inclusive, Sharivan teve uma curta exibição nas duas últimas semanas do programa Mara Maravilha Show, com o primeiro episódio reprisado em plena quarta-feira, 19 de fevereiro de 1997. Entrou mesmo como tapa-buraco e no lugar de Rahan. O segundo episódio foi exibido na quinta (20), o terceiro na sexta (21), o quarto na segunda da semana seguinte (24), o quinto na terça (25) e por fim o sexto na quarta (26).

Nos dias 27 e 28 de fevereiro — quinta e sexta —, o Mara Maravilha Show reprisou os respectivos programas exibidos na terça e quarta da mesma semana. Ou seja, os episódios 5 e 6 de Sharivan também foram reprisados nos mesmos dias. Aliás, esta foi a última semana do Sharivan na Record (pelo menos em rede nacional) e o Mara Maravilha Show foi extinto. Na semana seguinte, estreou o Mundo Maravilha, a partir do dia 3 de março de 1997, nas manhãs da Record, das 10h às 11h. Mas sem tokusatsu, infelizmente.

Zorro, Robin Hood e a “vingança” do bispo

Dentre as mudanças de programação da Record em 1997, vale destacar as estreias de Zorro e Robin Hood em animê. O grande fenômeno de audiência da emissora do bispo, naquele ano, foi Ratinho Livre. O programa apresentado por Carlos Massa chegava a incomodar a Globo em vários momentos, graças ao seu cunho sensacionalista.

Ratinho chegou a rescindir contrato com a Record, após um ano na casa, para ir ao SBT. Diziam as más línguas que, por causa da saída de Ratinho, o bispo Macedo promoveu uma troca de afiliadas da emissora de Silvio Santos para a Record em três cidades, como forma de “vingança” contra o Ratinho. Se a motivação procede ou não, o fato é que a troca realmente aconteceu aqui em Fortaleza. A TV Cidade, canal 8, trocou o SBT pela Record às 8h da manhã do dia 5 de outubro de 1998 — um dia após as eleições presidenciais.

Com isso, o canal 14 voltou a exibir as barras coloridas minutos depois e saiu do ar em seguida — retornando somente em meados de julho de 1999 com a transmissão da extinta Rede Mulher e consequentemente da Record News a partir de 27 de setembro de 2007. Boa parte dos cearenses ficou sem o sinal do SBT por quase três meses, até a entrada da TV Jangadeiro como afiliada, em 1º de janeiro de 1999. Felizmente, eu tinha TV por assinatura e pude assistir ao SBT com sinal direto de São Paulo. Mas isso é uma outra história.

Memória afetiva

Foram 23 meses de transmissão oficial da Record pelo canal 14 UHF. O período pode parecer curto, mas tem um significado especial. Foi uma época em que o telespectador fortalezense podia acompanhar a emissora direto de São Paulo, sem depender de uma afiliada local. Numa época em que estava em expansão em território nacional, a Record conseguiu cativar a capital cearense com um sucesso quase imediato.

Lembro que pessoas buscavam adaptadores de sinal para sintonizar o canal 14. O misto de programação infantil, jornalismo e especialmente o catálogo de séries internacionais ajudaram a formar uma espécie de legado/memória afetiva para quem buscava uma nova opção na TV aberta. Para mim, foi uma descoberta de apresentadores e títulos de produção que não eram acessíveis aqui na capital.

Acredito que essa história mereça ser contada e preservada. A passagem da Record pelo canal 14 UHF de Fortaleza foi importante, por ser uma emissora totalmente diferente dos dias atuais. Valeu a pena esperar, apesar da queda do tokusatsu na época. Bons tempos que não voltam mais.


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